Cristiane Marangon

Ainda na Educação Infantil, os alunos podem realizar tarefas com autonomia. Para aqueles que sempre esperam sua ajuda, o incentivo e o elogio são essenciais

A professora Juliana tem uma turminha de 2 anos, todos comem o lanche sozinhos hora do recreio. A garotada toda corre até a pia para lavar as mãos. Na sala de aula fica apenas uma criança, esperando que o professor a acompanhe. Enquanto os colegas comem o lanche, o garoto, mais uma vez, aguarda que alguém o ajude. Na Educação Infantil, demonstrações de falta de autonomia como essa não são raras e indicam superproteção da família. Como a escola é o primeiro espaço de socialização que as crianças conhecem depois de sua casa, está em suas mãos torná-las independentes, de acordo com o que é esperado para cada faixa etária.
O pequeno aluno se retrai por acreditar que o mundo só pode ser explorado ao lado da pessoa que cuida dele — a mãe, por exemplo. Curiosamente, é o próprio adulto quem estabelece essa relação de dependência. "Por zelo, ele faz todas as tarefas pelo filho. Com isso, cria na criança o hábito de esperar que outros ajam da mesma maneira e, também, o medo de fazer algo sozinho", explica Elvira de Souza Lima, psicóloga especialista em desenvolvimento humano, de São Paulo.
"É comum o adulto revelar a superproteção quando diz que precisa acompanhar o filho até a classe para que ele não chore", conta Isabella Sá, consultora do Espaço de Educação Infantil Os Batutinhas, no Rio de Janeiro. De forma geral, os estudantes que sofrem ao se despedir do responsável são introvertidos e resistentes a novas experiências. Quando recebem um comando de ação, ir ao parque, por exemplo, ficam estáticos.
O segredo é conquistar a confiança das crianças.
Para avaliar se um aluno é mesmo dependente, o ideal é observá-lo em várias atividades dentro e fora da sala de aula. É importante nunca julgá-lo com base em uma única constatação e nem dar a ele um "rótulo" que poderá causar traumas. Um garoto pode se revelar independente em uma aula-passeio e não em classe. "Só com essa diversidade de situações o docente consegue verificar em quais o estudante se sai bem e demonstra mais segurança e iniciativa", orienta Elvira.
O homem é a única espécie animal que tem grande dependência do outro nos primeiros anos de vida. Portanto, é natural que o bebê seja cercado de cuidados. Gradualmente, a criança se torna capaz de assumir tarefas e assim desenvolve sua autonomia. Isso acontece conforme é estimulada pelas pessoas que estão ao redor dela.
Você só vai ter sucesso nessa tarefa se ganhar a confiança dos pequenos. Um período de adaptação com a presença dos familiares é de grande ajuda. Os pais podem passar para o filho um sentimento de segurança no novo ambiente. "Se a professora pede à turma para buscar um material e a criança permanece sentada, a mãe a incentiva a acompanhar os amigos", exemplifica a professora Maria Clotilde Rossetti-Ferreira, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto.
No dia-a-dia, é preciso garantir às crianças afeto, companhia constante, atenção e cuidados. "O docente tem de proporcionar aos alunos tudo o que o responsável por eles dá em casa", afirma Isabella, de Os Batutinhas. Depois que os pequenos estiverem adaptados, é hora de mostrar que são capazes de realizar tarefas sozinhos, mesmo que não seja esse o costume em casa. "A hora do lanche é uma ótima oportunidade. As crianças se sentem orgulhosas em comer sem ajuda" afirma a professora Juliana Coutinho, responsável por uma turma de 2 anos.
Vários desafios vão surgir e serão produtivos na busca pela independência da meninada. Quando você pedir aos alunos para realizar tarefas que ainda não fazem parte do seu dia-a-dia — como abotoar roupas ou amarrar sapatos —, acompanhe de perto a execução e os incentive, mas nunca faça nada por eles. As atividades que proporcionam a interação com os colegas também são ricas oportunidades de crescimento. E não se esqueça dos elogios, que são valiosos. Diga: "Que bom! Você fez isso sozinho!"
O caminho para a autonomia:
Prepare uma adaptação das crianças que inclua os pais e estabeleça uma parceria constante com a família.
Garanta na escola as mesmas condições que o aluno tem em casa: afeto, companhia constante, atenção e cuidados.
Incentive o aluno a executar tarefas que tem capacidade de realizar sozinho.
Parabenize-o a cada iniciativa de sucesso.

As fases do desenvolvimento infantil:
Para que você perceba se a criança é dependente ou não é importante conhecer o que, teoricamente, ela teria condições de executar com autonomia. Isso pode variar de acordo com a cultura de cada local.
0 a 2 anos O ser humano nasce totalmente dependente do outro, que se responsabiliza pela sua sobrevivência física e também pelo processo de humanização, que inclui a fala, o ato de andar e a vida em sociedade. Esse adulto deve também decifrar seus desejos por meio do choro, das caretas e dos sorrisos.

2 a 3 anos Com essa idade, a criança utiliza a linguagem para expressar o que sente: fome, sede, frio e sono. No campo afetivo, passa a se relacionar com outras pessoas que não aquelas que cuidam dela. Já é capaz, por exemplo, de trocar objetos com o amigo e não mais tomá-los à força, de sentar-se à mesa durante o lanche e de se alimentar sozinho.
3 a 4 anos Nessa fase, a criança testa seu poder com birra, graça e pedidos — e descobre qual a melhor forma de ter seus desejos atendidos. Mas pode cumprir as regras de convivência construídas coletivamente e realizar tarefas como carregar a própria mochila e tirar dela o material. Pode ainda usar o banheiro com a supervisão de um adulto.

4 a 5 anos Manuseia seus objetos pessoais e, se não estiver apta por qualquer problema motor, solicita ajuda. Também tem condições de escolher com o que vai brincar. Troca de roupas, participa de tarefas coletivas e ajuda o professor.

5 a 6 anos Já escolhe os amigos e as brincadeiras e também pode ser responsável pelo material individual.

6 a 7 anos Crianças nessa fase já possuem linguagem mais elaborada e, por isso, se colocam com mais clareza. Já realiza as tarefas de casa com autonomia e se responsabiliza por trazer e levar materiais. Divide tarefas nos trabalhos em grupo e se compromete com o trabalho final.


Quer saber Mais

Espaço de Educação Infantil Os Batutinhas, R. Redentor, 265, 22430-030, Rio de Janeiro, RJ, tel. (21) 2294-1203


Bibliografia

A Criança em Desenvolvimento, Helen Bee, 612 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-7033444, 108 reais
Conhecendo a Criança Pequena, Elvira de Souza Lima, 32 págs., Ed. Sobradinho 107, tel. (11) 5083-6043, 5 reais
Dificuldades de Aprendizagem, Nadia A. Bossa, 120 págs., Ed. Artmed, 29 reais
Os Fazeres na Educação Infantil, Maria Clotilde Rossetti-Ferreira, Ana Maria Mello, Telma Vitória, Adriano Gosuen e Ana Cecília Chaguri (orgs.), 198 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3864-0111, 29 reais

Fonte:
Site Nova escola: www.novaescola.com.br



Não encontrou? Pesquise abaixo mais conteúdo infantil: