Maria Anísia Villas-Bôas Tourinho Vidal

LIVROS
Adelaide Love

Os livros, penso que são
Como portas encantadas,
Que levam a lindas terras,
Onde moram anões e fadas.

Lugares longe e tão belos
Aonde eu não podia ir,
Mas, agora, com esta porta,
É só ter cuidado e... abrir.

Antes de dormir, uma criança costuma ouvir, todas as noites, as mais diversas e interessantes histórias encantadas: Rapunzel, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela...
Acostumada a esse devaneio diário, ela quer mais. Ouvir já não basta, precisa de aventura, coração batendo forte, adrenalina em alta! É quando resolve embarcar na viagem dos livros. Então, toma nas mãos um exemplar e começa a folheá-lo uma, duas, dezenas de vezes. O colorido, os desenhos, e muita imaginação transportam-na para dentro dele e, em cada folha, vê-se junto com as personagens construindo a história. Em uma página, mora numa bota, em outra, numa abóbora, na seguinte, voa num cesto com uma velha esquisita a limpar o céu; ao passar mais uma página, gira várias vezes no carrossel; na próxima, nada nos mais lindos rios...
Com essas primeiras leituras, a criança adentra no universo dos contos de fada e das fábulas, os quais a envolvem no misterioso mundo da fantasia, e a cada viagem que faz, seu Reino Encantado de Leitura está se formando; um castelo se ergue, lá no alto, lindo, mas um diamante ainda bruto! Daí, o cuidado que esse mundo requer: precisa ser lapidado, esmerilado, polido, para depois de consolidado, alcançar a magnitude, e brilhar, brilhar, brilhar, estonteantemente!
A descoberta do texto literário provoca a abertura de um portal que dá início ao processo de formação do leitor, uma vez que este, a cada experiência vivida, mais adentra no mundo das palavras, mais se emaranha na teia de prazer que a leitura lhe dá.
Ler, então, não é apenas somar sílabas ou pronunciar vocábulos ao vento, mas, é deixar-se seduzir pelos sons que as palavras emitem, pelo conteúdo que enunciam...
Assim, inicia-se uma relação amorosa entre leitor-livro. E à medida que os amantes se conhecem, cria-se um laço de segurança e intimidade entre eles, o que permite ao livro despir-se e expor-se por inteiro ao leitor, que vivencia as mais excitantes aventuras ao longo da narrativa.
Daí ser objetivo primordial desse trabalho, mostrar quão importante é a leitura para a formação do ser humano, bem como apresentá-la como uma atividade prazerosa e que leva à fruição. Também aponta que livro não é dever, e quando assim é imaginado, é afastado do aluno, vez que perde o poder de tomar vida e de mexer com o sentimento, com a emoção...
Para tanto, fez-se necessário buscar embasamento nos teóricos, através de referências bibliográficas que contemplem o assunto abordado, assim como em depoimentos de alunos e ex-aluno da Rede Pública de Ensino de Jequié-BA.
Leitura: fonte inesgotável de prazer

Cada palavra descortina um horizonte, cada frase anuncia outra estação. E os olhos, tomando das rédeas, abrem caminhos, entre linhas, para as viagens do pensamento. O livro é passaporte, é bilhete de partida.

Bartolomeu Campos Queirós, em: O livro é passaporte, é bilhete de partida
Descobrir o mundo da leitura e da escrita é uma experiência fascinante que todo homem tem o direito de viver. É um tesouro cujos bens desencadeiam uma busca incessante vez que não são inerentes ao ser humano, mas patrimônios adquiridos através da cultura e da educação. Daí, ser papel fundamental tanto dos pais quanto da escola e professores, criar oportunidades para que a criança se descubra leitora. Se bem alicerçado através de histórias interessantes, livros com temas variados e de qualidade, que respeitem a criança e não subestimem sua inteligência, poderão deixar florescer um adulto amante dos livros e da leitura, pois como já dizia Monteiro Lobato (1972), a criança é um ser onde a imaginação predomina em absoluto.
O ato de ler para os filhos, desde bebês, além de oferecer-lhes segurança, amor e carinho, ainda lhes dá a possibilidade de viajar pelo mundo através das páginas de um livro; também, os sons melodiosos e as pronúncias silabadas, emanadas da voz, remetem as crianças a momentos felizes com os pais. Isso torna o livro um objeto de puro prazer. Nesse sentido, Simone de Beauvoir, de acordo com Gallimard, (1976 in: FRAISSE, 1997:20) dá o seguinte depoimento:
[...] meu pai nos lia Le voyage de Monsieur Perrichon, ou então nós líamos lado a lado, cada um para si. Eu olhava meus pais, minha irmã, e sentia um agradável calor no peito. “Nós quatro!”, dizia-me com emoção. E pensava: “Como somos felizes!” Um ambiente agradável, descontraído, informal, que enfatize as expressões, gestos e entonação de voz, prende a atenção da criança à leitura, que, entusiasmada com o teatro, interatua intensamente com a história e a torna viva. Diante disso, por que, então, não deixar a criança fazer suas leituras, ouvir sua própria voz cantar a música das palavras? A emoção pode ser maior...
Fiquei então com ciúme de minha mãe e resolvi tomar seu papel. Pegava uma obra intitulada Tribulations d’um Chinois em Chine e a levava para o quarto de despejo; lá, empoleirado num catre, fingi que lia: seguia com os olhos as linhas pretas, sem pular nenhuma, e me contava uma história em voz alta, tomando cuidado de pronunciar todas as sílabas. Surpreenderam-me um dia – ou me fiz surpreender –, houve exclamações, decidiram que já era tempo de me ensinar o alfabeto. Como aluno, tive o zelo de um catecúmeno; chegava a dar aulas particulares a mim mesmo; subia no meu catre, com o Sans famillei, de Hector Malot, que eu já conhecia de cor, e meio recitando, meio decifrando, percorri todas as páginas, uma após outra. Quando virei a última, sabia ler. Sartre, de acordo com Gallimard (1964 In: FRAISSE 1997:19-20) A consistência para um adulto leitor se estabelece desde a infância, quando a criança tem contato com as histórias narradas pelos mais velhos e quando se relaciona com um material escrito sem moralismos, que apregoe temas variados e de qualidade e que expressem respeito à inteligência infantil, vez que, e conforme Rubem Alves (2004:Folha de São Paulo, Caderno Sinapse), o escritor não escreve com intenções didático-pedagógicas. Ele escreve para produzir prazer. Para fazer amor. Escrever e ler são formas de fazer amor.
Para tanto, é necessário que o livro esteja sempre perto desses pequenos leitores, a fim de que tenham acesso sempre que desejarem, já que é a partir da sensibilidade do toque, do sentir o cheiro, de apertá-lo ao peito, que nasce a vontade de desvendá-lo, pois, de acordo Barthes (1981:9), escrever no prazer não assegura ao escritor o prazer do leitor. É necessário que esse o procure, que o drague, sem saber onde ele está.
Quando esse intercâmbio, essa relação, essa empatia acontece, o escritor desperta o leitor, toma-o pela mão e o leva para seu mundo. O mundo da criação, do imaginário, da sedução... E então, escritor-leitor tornam uma só pessoa, comungam do mesmo pensamento, constroem juntos a história, vivem em função um do outro.
É o que acontece tanto com Simone de Beauvoir quanto com Sartre. Eles deixam transparecer o quão hipnótico são os livros em suas vidas; ou são os seus poderes de leitor que hipnotizam os livros? Tanto faz. O importante é que a leitura foi herdada no aconchego do lar; pai, mãe e filhos reunidos desfrutando o calor emanado dos livros.
Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, lendo para o filho... Essa experiência é o aperitivo que ficará para sempre guardado na memória efetiva da criança. Na ausência da mãe ou do pai a criança olhará para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as delícias que estão contidas nas palavras. E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da mãe: eles são aqueles que têm a chave que abre as portas daquele mundo maravilhoso! (ALVES, 2001: Correio popular, caderno C)
Professor Sherazade: a sedução pelas palavras

A leitura guarda espaço para o leitor imaginar sua própria humanidade e apropriar-se de sua fragilidade, com seus sonhos, seus devaneios e sua experiência. A leitura acorda no sujeito dizeres insuspeitados enquanto redimensiona seus entendimentos. Bartolomeu Campos Queirós, em: O livro é passaporte, é bilhete de partida
Há trabalho mais definitivo, há ação mais absoluta do que essa de aproximar o homem do livro?
Nos contos d’As mil e uma noites Sherazade seduz o sultão através das histórias; envolve-o totalmente na trama. Ela sabe usar tão bem as palavras que ele, cativado pela moça, rende-se ao amor. Nesse instante, o sultão se humaniza e a força da magia das palavras salva a vida dos dois: um da morte física e o outro da morte espiritual.
Do seu lugar, também o professor possui um forte poder de sedução sobre o aluno; e sabedor desse dom, tem a chance de portar-se como Sherazade para criar situações prazerosas que atraiam seus alunos para os livros. Foi assim, por exemplo, com Jorge Amado (1987: 112-113), quando seu professor de Língua Portuguesa vivia as poesias que declamava!
Em lugar de nos fazer analisar “Os Lusíadas”, tentando descobrir o sujeito oculto e dividir as orações, reduzindo o poema a complicado texto para as questões gramaticais, fazendo-nos odiar Camões, o padre Cabral, para seu deleite e nosso encantamento, declamava para os alunos episódios da epopéia. Apesar do sotaque de além-mar, a força do verso nos tomava e possuía. Líamos igualmente a prosa de Garret, a de Herculano, cenas de “Frei Luiz de Souza”, trechos de “Lendas e Narrativas”. Patriota, desejava sem dúvida nos fazer conscientes da grandeza de Portugal, o Portugal das descobertas e dos clássicos. Obtinha bem mais do que isso: despertava nossa sensibilidade, retirando-nos do poço da gramática portuguesa (cujas rígidas regras nada tinham a ver com a língua falada pelo povo brasileiro) para a sedução da literatura, das palavras vivas e atuantes. As aulas de português adquiriram outra dimensão. Nesse mesmo sentido, Lya Luft (1997: 157), ao relembrar de seus educadores memoráveis, descreve o poder de sedução de seu professor iniciador de leitura. Este a levava a delírios!
“Ele me ensinou quase tudo que sei: não só o tesouro oculto nas páginas de cada livro fechado, não só a maravilha de cada pequena ou grande descoberta, não só a comunhão com autores e leitores, mas a sabedoria da vida cotidiana.(...)
Esse é o verdadeiro mestre: o que não castiga mas impele, o que não doutrina mas desperta a curiosidade e a acompanha, o que não impõe mas seduz, o que não quer ser modelo nem exemplo mas companheiro de jornada...” (Lya Luft. Lembro-me dele. In: Abromovitch, Fany. (org) Meu professor inesquecível)
Para ratificar as palavras de Luft, Rubem Alves (2001: Correio popular, Caderno C) diz que as delícias do texto estão na fala do professor no momento da leitura, o qual age como elo de união entre aluno e prazer do texto. Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintática. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas me lembro com alegria das aulas de leitura. Na verdade não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto e nós ouvíamos extasiados. Ninguém falava.
Sherazade encantou o sultão com histórias estrategicamente selecionadas e contadas. A cadência, o ritmo, o som melodioso, as palavras sussurradas deliciosamente ao ouvido, a cintilação, o desejo de desnudar o texto e conhecer o fim, o encantavam. Na verdade, foi a linguagem transforma
da em prazer que o levou à fruição e o fez se apaixonar pela moça e pela vida. Nessa direção, Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso (1981: 64), teoriza que no momento da leitura, a interação leitor-texto é tão forte que este transcende o próprio ato de ler e se transforma em objeto de puro prazer e desejo.
... de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é “eu te desejo” e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras; eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário com o qual submeto a relação.
E assim, usando como arma apenas o gosto pela leitura e pela literatura, Sherazade consegue quebrar a ira do sultão e libertar não somente a si, mas todas as donzelas do cruel destino imposto pelo soberano. Daí, tomar as palavras de Rubem Alves (2004: Folha de São Paulo, Caderno Sinapse) e guardá-las: (...) o lugar da literatura não é a cabeça: é o coração. A literatura é feita com as palavras que desejam morar no corpo. Somente assim ela provoca as transformações alquímicas que deseja realizar.
Email da autora: manisia0110@yahoo.com.br



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