Fernando Falabella Tavares de Lima 14/07/03

Inicialmente, destacamos que não tivemos acesso, na cidade de São Paulo, a pesquisas acadêmicas sobre os jogos infantis Yu gi oh e Magic ou a trabalhos acadêmicos sobre outros jogos como esses cards.
Este fato aponta para a importância de que pesquisadores da área da Psicologia e da Educação passem a investigar, com maior rigor metodológico, as conseqüências de tais jogos, seus conteúdos, etc, estabelecendo parâmetros que possam ser utilizados para nortear o seu uso pelas crianças e adolescentes; parâmetros esses transmissíveis a pais e professores, em nossa sociedade.
Tentando assegurar um parecer técnico onde estejam contemplados conteúdo sério e opiniões respeitáveis de especialistas na área da Psicologia e da Educação, realizamos três entrevistas com profissionais dessas áreas. No final do mês de junho de 2003, conversamos com a Dra. Vera Maria de Souza Nigro Placco, professora do Programa de estudos pós-graduados de Educação: Psicologia da Educação da PUC-SP, com o Psicólogo do Esporte, mestre em Psicologia Social, coordenador da Consultoria, Estudos e Pesquisa da Psicologia do Esporte (CEPPE), João Ricardo Lebert Cozac e com o Psicólogo, diretor do Núcleo de Estudos e Temas em Psicologia (NetPsi), professor das Faculdades Integradas Teresa Martin e pesquisador da PUC-SP em temas ligados aos problemas atuais da adolescência: violência, drogas e aids, Marcelo Sodelli.
Desde já, agradecemos a gentileza e a imensa contribuição desses pesquisadores para este parecer.
Convém relembrar que o caráter lúdico nas brincadeiras, jogos e atividades infantis é essencial para o desenvolvimento da personalidade das crianças. Assim como os jogos, a prática esportiva assume uma importância fundamental no processo da sociabilização infantil.
Na visão de João Ricardo Cozac: "a atividade esportiva, seja ela apenas um exercício, ou uma modalidade esportiva onde haja competição, deve ser feita com amor e dedicação. Este ponto é unanimidade na maioria das crianças. Infelizmente, visível apenas, no olhar das crianças. Poucos pais possibilitam a seus filhos, uma escolha livre do esporte\ exercício que irão praticar".
O que fazer, efetivamente, para não pressionar a criança na escolha do esporte ou dos jogos adequados? Cozac alerta para o fato de que muitas vezes, as crianças são obrigadas a fazer esse ou aquele esporte por desejo dos pais. "Os pais devem dar liberdade máxima para a escolha do esporte pelos seus filhos, procurando interferir o mínimo possível, na decisão da modalidade esportiva que desejam praticar. As crianças já vivenciam muitas cobranças na rotina de suas vidas: são cobradas na escola pelos professores; em casa, por seus pais; na expectativa social de gerarem uma sociedade mais justa. Os jogos acabam sendo importante válvula no exercício da liberdade e auto descoberta infantil", destaca o psicólogo do esporte.
O diretor do NetPsi, Marcelo Sodelli, concorda e amplia essa idéia: "em função dos ideais dos adultos, muitas crianças não podem ser infantis. Não têm direito ao tempo necessário, diariamente, às práticas lúdicas. Vivem uma rotina de compromissos como se fossem adultos. Temos atendido a muitas crianças que chegam a desenvolver crises de ansiedade, com diversos sintomas, em função da excessiva pressão dos pais. Por outro lado, há o abandono de alguns adultos que não exercem o papel de educadores dos filhos".
Alguns pais tomam a frente e decidem qual o tipo de jogos que os filhos irão jogar.
Este fato, ainda segundo João Ricardo Cozac, pode causar na criança, um profundo desgosto pelo esporte e pela prática de atividades lúdicas. Cozac explica que "essa atitude se deve a experiências que foram positivas aos pais, que acabam projetando em seus filhos, depositando expectativas que não fazem parte do mundo deles mas sim, de seus próprios universos e histórias de vida".
Segundo a Dra. Vera Placco: "O primeiro livro e os primeiros cards de RPG que meu filho teve foram dados por mim. Quando tive contato com os baralhos de Magic, considerei-os altamente estimulantes de uma série de habilidades mentais: organização, síntese, análise, etc, além de estimular a imaginação e permitir a elaboração de enredos, histórias, etc, em todo seu entorno: comunicação oral, organização do pensamento, lógica".
Realçando o efeito das brincadeiras e dos cards, o pesquisador Sodelli acrescentou: "Não se deve perder de vista que a atividade clínica com crianças, a ludoterapia, é sobretudo baseada em brincadeiras e jogos lúdicos. O terapeuta pode verificar, através do brincar das crianças, quais seus principais conflitos e ansiedades, podendo interpretá-los. Além disso, a própria brincadeira, em si, pode servir como meio de elaboração de conflitos para as crianças. A brincadeira é fundamental para o desenvolvimento psíquico das crianças".
Outro aspecto levantado pela professora da PUC é que os cards por se tratarem de um jogo coletivo, possibilitam a convivência das crianças com pontos de vista e atitudes diferentes da sua, aumentando o respeito para com o outro, auxiliando na aprendizagem da tolerância ao que é diferente.
Ao ser questionada sobre como os educadores devem lidar com os jogos nas escolas, na rotina diária, ensinou-nos Placco: "Entendo que um local como a escola poderia, com facilidade, incorporar esses desenvolvimentos que mencionei (citados acima), ampliando ainda para as possibilidades interdisciplinares dos jogos". A professora relatou não poder afirmar que as características dos jogos possibilitem desenvolvimentos mais ou menos violentos nas crianças.
"No entanto, podemos supor que uma possível agressividade pudesse ser percebida, canalizada, analisada e superada, se o dirigente da cena for um educador, ou alguém sensível para permitir a discussão de uma situação desagradável e indesejada. A rotina da escola será ou não atrapalhada por jogos como o Yu gi oh se não houver uma política de limites estabelecida, ou se não houver preocupação com o potencial aproveitamento pedagógico do próprio jogo".
Ao ser inquirida sobre a possível tendência dos jogos, de incentivarem a violência dos estudantes, a Dra. Vera Placco nos respondeu: "A tendência a demonizar o que não se conhece leva muitas pessoas e atribuir aos jogos poderes muito grandes. Uma criança, com situações de agravo de qualquer espécie, será muito sensível a qualquer influência externa, potencializando sua agressividade e violência frente a quase qualquer estímulo. No entanto, crianças mais 'equilibradas' tomarão os jogos como eles são, assim como os contos de fadas e histórias infantis, os faz de conta. E isso não as fará mais violentas ou destrutivas.
Alguém já ouviu dizer que os aficcionados de Monteiro Lobato se tornaram consumidores de cocaína, estimulados pelo pó de pirlimpimpim?"

PARECER:
Na nossa opinião, essa última colocação de Placco é o ponto central da discussão, visão que tivemos a oportunidade de expressar no programa "Boa Noite Brasil", da TV Bandeirantes, no dia 05.06.2003, quando se debateu essa temática.
Nas escolas sempre se "bateu figurinha" nos recreios e isso nunca trouxe nenhum problema. As crianças sempre gostaram e necessitaram de contos de fadas e histórias fantásticas, até como forma de aliviarem medos e fantasias inconscientes.
O importante é que exista um adulto que possa nortear e explicar para as crianças o que está se passando, assim como deveria ocorrer em relação aos conteúdos violentos e eróticos da televisão brasileira. O papel dos pais, ou de responsáveis nas famílias, é de fazer a leitura crítica dos conteúdos e então, permitir ou não, que as crianças tenham acesso a determinados conteúdos. Este mesmo papel deve ser feito pelos educadores nas escolas.
Destacamos que, mesmo exercendo o papel de análise crítica sobre o tipo de jogos que os filhos estão brincando, os pais devem ter respeito às escolhas, aos desejos e às necessidades das crianças. Dessa forma não se incorre no erro, apontado por Cozac, em que o pai pode até afastar as crianças das práticas esportivas e lúdicas ao obrigar seus filhos a brincarem e se comportarem de acordo com seus desejos e expectativas. Nunca é demais lembrarmos que exercer autoridade é bem distinto de ser autoritário.
Frente às opiniões que foram expostas neste estudo, pode-se concluir que a utilização dos cards não é prejudicial para as crianças e para o seu desenvolvimento psíquico, desde que seja acompanhada, respeitosamente, pela análise dos adultos responsáveis, sejam os pais ou os educadores, como explicou Sodelli.

Fonte: NetPsi - Núcleo de Estudos e Temas em Psicologia
www.netpsi.com.br
Rua Alves Guimarães, 734 - Pinheiros - SP
Fone:11.3891.1452



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